A história dessa peça começou quando minha eterna priminha, a Rayssa, deixou um comentário no Facebook dizendo que estava com invejinha da nossa vó Ziquinha quando ela ganhou um xale rendado que eu teci. Fiquei tão tocada que se pudesse teria montado os pontos de um xale para ela imediatamente.
A Rayssa tem (bem) mais de vinte anos, mas no meu coração ela sempre será aquela bebê fofa de voz grave, falante e curiosa, que subia pelos móveis e queria entrar dentro da cristaleira da minha mãe.
Demorou uns meses até que tudo estivesse pronto para eu começar essa peça. E isso aconteceu em meados de novembro do ano passado. Sempre me senti atraída por essa receita, uma mistura de xale e echarpe. Achei que essa receita tinha tudo a ver com a Rayssa. Eu tinha esse fio, nessa cor que acho deslumbrante. São 450 metros, perfeito!
Existem duas versões dessa receita. Podemos imprimi-la a partir do site Knitty ou baixar o PDF do Ravelry. Ambas estão corretas, mas não se deve misturar os gráficos de uma versão com os da outra. Eu escolhi baixar o PDF por que usei o aplicativo KnitCompanion instalado no iPad para seguir os diversos gráficos.
Eu não diria que essa receita é daquelas que se tricota para relaxar. Não mesmo! Requer muita atenção! A maior parte do tempo devemos seguir dois gráficos diferentes para fazer uma única carreira. E lá pelo final da receita, o número da linha de um gráfico não batia com o número da linha do outro gráfico. Tenso…
O xale nasce a partir de dois pontos montados na agulha. Nas carreiras ímpares são feitos os aumentos que dão forma ao xale. Depois do gráfico inicial (A), começa o gráfico C que corresponde ao barrado do xale. Esse gráfico será repetido ao longo de todo xale, praticamente 80% do tempo, ao mesmo tempo que outros gráficos são trabalhados. O xale cresce na altura, então a parte central é tecida reta e em seguida o xale diminui até que restem dois pontos na agulha.
Usei um marcador de pontos vermelho para delimitar a fronteira entre o gráfico C e os demais gráficos. A receita só pede esse marcador. Mas é salutar usar marcadores para delimitar as repetições dentro de cada gráfico. Então escolhi marcadores brancos para as repetições de um mesmo gráfico.
Duas semanas depois de iniciado, o pobre xale foi colocado em segundo plano devido às exigências do trabalho. A prioridade naquele momento era trabalhar dia e noite, fim de semana também, para cumprir o prazo de entrega.
Assim que o trabalho foi entregue, era hora de viajar para a casa de meus pais para as festas de Natal e Ano Novo. Eu levei o xale para tricotar lá, mas convenhamos, seguir dois gráficos ao mesmo tempo não encoraja a socialização… Do jeitinho que ele foi, voltou. E assim permaneceu, intocado, por mais de dois meses.
Em março, eu retomei a peça. Tive de fazer um esforço porque tinha esquecido todos os pormenores da receita. Estudando a trama, finalmente aceitei que os contadores do KnitCompanion indicavam precisamente onde eu tinha parado.
E tive de ler a receita de novo para esclarecer duas perguntas cruciais: a) o gráfico mostra os pontos da borda?, e b) como se tricota a carreira do avesso? Sanadas as dúvidas, me entreguei às delícias de tricotar novamente!
Foi então que aconteceu o Drama Número Um. Uma atualização da versão 9.3 do sistema operacional do iPad fez com que meu aparelho ficasse travado. Pelo que andei lendo, vários proprietários do iPad 2 ao redor do mundo tiveram o mesmo problema.
Segui todos os passos recomendados pela Apple, sem nenhum sucesso. Achei que teria de apagar todos os meus dados e reinstalar os aplicativos que uso. Mas o suporte da Apple entrou em contato e baixou uma atualização que destravou o aparelho e salvou todos os meus dados.
Lições aprendidas: a) nunca mais instalar uma atualização sem antes fazer um backup dos dados; e b) mesmo assim, esperar ao menos dois dias para ver se outros usuários tiveram problemas.
Com o KnitCompanion operacional e todos os meus contadores intactos, retornei ao xale. Segui a receita à risca. Depois da fase dos aumentos tem um gráfico reto que deve ser repetido quatro vezes, e assim o fiz. Finalmente pude iniciar a etapa de diminuições até alcançar o último gráfico do xale.
Faltando menos de 20 carreiras para terminar o xale, quem terminou foi o fio. Esse foi o Drama Número Dois! Considerei comprar outra bola, porém faz tanto tempo que comprei esse fio não encontraria outro lote dele.
Três dias depois, passado aquele sentimento de frustração e totalmente tomada pela atitude “vamos resolver esse problema”, sentei-me e estudei a trama. Localizei o local exato da conclusão da terceira repetição do gráfico reta. Desmanchei até esse ponto. Eu devo ter desmanchado uns 25 centímetros de trama. A partir daí iniciei as diminuições.
Desse modo, omitindo a quarta repetição do gráfico reto, eu pude concluir o xale. E quando arrematei os últimos dois pontos, sobrou pouquíssimo fio.
O resultado me agradou bastante! Fica legal usado como um xale e também fica muito bem quando usado em volta do pescoço, como uma echarpe.
Depois de bloqueado e seco, o xale mediu 175 centímetros de envergadura. Se eu tivesse tido fio suficiente para tricotar a quarta repetição do gráfico reto, imagina como esse xale não ficaria longo? Ah,sim! A peça mede 31 centímetros de altura.
E não descarto a ideia de tricotar essa receita novamente!
Receita: Estuary de Tin Can Knits
Fio: Pingouin Tropfil na cor 2524
Composição: 100% algodão
Agulha: circular de numeração 3,5mm de 100 cm de comprimento
Veja esse xale no Ravelry


























