uma salopete

No início desse ano, minha irmã me enviou uma fotografia de sua cunhada, ainda bebê e toda sorridente, sentada em um balanço e vestindo uma salopete de crochê azul claro.

Não foi nenhuma surpresa quando minha irmã me perguntou se eu conseguiria fazer uma releitura da peça em tricô. Ela queria presentear a filha de sua cunhada, a pequena Valentina, com uma peça igual à que sua mamãe usou quando era bebê.

tricô em prosa - uma salopete - frente da salopete

Das inúmeras qualidades de minha irmã, sempre me tocou o quanto ela é atenciosa com as pessoas, o quanto valoriza suas histórias.

Aceitei o desafio com um sentimento de alegria por poder contribuir, e confesso, um pouquinho de temor pelo tamanho da responsabilidade.

croqui, medidas e amostra

Bem, era janeiro e eu teria muito tempo pela frente!

Nos primeiros meses eu apenas procurava pontos para o barrado da saia e separava alguns deles usando o Pinterest.

Também desenhei vários croquis. Nos primeiros, a parte superior parecia mais com uma jardineira tradicional, com as tiras sobre ombros unidas ao peito com um botão. Um dia eu reparei que a peça na fotografia não tinha botão nenhum e refiz tudo.

tricô em prosa - croqui da salopete medidas em centímetrosO desenho final ficou com a parte superior composta de dois trapézios, um frontal e um posterior, que são unidos na altura do pescoço e na cintura. A peça é fechada na parte superior das costas com um botão. Da cintura para baixo, uma saia.

Obtive as medidas da peça medindo uma camiseta de tamanho um ano que comprei com o único intuito de usá-la como “molde”, uma dica preciosa da generosa Beatriz Medina.

Usando a camiseta como base eu decidi as medidas do comprimento da tira da gola, da circunferência do busto e das alturas do peito e da saia. A circunferência do busto seria de 45 a 47 centímetros. A altura do trapézio superior seria de 14 centímetros, sem contar a tira da gola. A saia teria 20 centímetros de altura.

hora de tricotar uma amostra

Eu escolhi esse ponto porque achei que ficaria muito bem no barrado da saia e porque ele tem uma parte em barra 1×2 (1 meia pelo fio de trás, 2 tricô) que eu poderia usar no corpo da peça, criando uma transição harmoniosa para o barrado.

No fim de julho eu comprei o fio e teci uma amostra com meu ponto favorito. Nessa amostra, boa parte foi tecida em barra 1×2 e depois finalizada com o ponto rendado. Ela foi tecida sempre pelo lado direito, com longos fios frouxos correndo pelo lado avesso.


No dia seguinte eu lavei e coloquei a amostra para secar.

tricô em prosa - croqui da salopete com medidas em carreiras e pontosMedi somente depois de confirmar que ela estava completamente seca.

Havia 13 pontos em 5 centímetros e 18 carreiras em 5 centímetros na parte da barra 1×2.

Já o motivo do ponto rendado media 7 centímetros de largura por 8,5 centímetros de altura.

Agora sim, eu poderia converter as medidas das larguras em quantidade de pontos e as medidas das alturas em quantidades de carreiras. Também poderia calcular a frequência em que os aumentos deveriam ser trabalhados, tanto para dar forma aos trapézios quanto à saia.

início da peça

A salopete é tricotada de cima para baixo, ou seja, ela começa com a tira em torno do pescoço e segue em direção à saia.

Montei 91 pontos usando a antiga montagem norueguesa, que é mais elástica, usando agulhas número 2,75 mm. Trabalhei sete carreiras ida e volta em cordões de tricô, tomando o cuidado de fazer uma casa de botão na quarta carreira.

Na oitava carreira eu troquei a agulha por outra de númeração 3,00 mm. Trabalhei os quinze pontos iniciais da parte direita das costas, arrematei quatorze pontos, trabalhei os 31 pontos da parte frontal, arrematei quatorze pontos e trabalhei os quinze pontos iniciais da parte esquerda das costas.

tricô em prosa - detalhe das costas da salopeteA parte mais complicada foi, sem dúvida, tricotar o início das duas metades (direita e esquerda) das costas. Cada uma é tecida individualmente, virando o trabalho no final da carreira. Ambas metades são tecidas até a carreira 19. Na carreira número vinte, a segunda metade é unida à primeira sobrepondo os cinco pontos centrais.

Com a ajuda de uma terceira agulha de ponta dupla eu juntei, aos pares, os cinco pontos centrais (em cordões de tricô) para que fossem trabalhados juntos em meia. Assim, sem nenhum costura, as duas metades das costas foram unidas.

tricô em prosa - costas da salopete ainda em andamento

A partir daí continuei tricotando o trapézio das costas da mesma maneira que o trapézio da frente da salopete, realizando aumentos em cada lateral a cada seis carreiras até haver 47 pontos na agulha.

Para iniciar a saia eu trabalhei os 47 pontos do trapézio frontal, acrescentei 16 pontos, trabalhei os 47 pontos do trapézio das costas, acrescentei 16 pontos e fechei a volta para tricotar circularmente. E na primeira volta da saia, fiz dois aumentos, um de cada lado, bem no meio dos 16 pontos acrescentados.

tricô em prosa - lateral da salopete

Mesmo que tenha feito muitas contas, ainda assim eu cometi um erro terrível. Eu calculei a frequência dos aumentos da saia para obter 156 pontos, que é múltiplo de 13, no intervalo de 11 centímetros de altura. Qual foi a minha surpresa ao ver que o ponto do barrado era na verdade múltiplo de 18?

Desmanchei tudo e refiz os cálculos da saia para obter 180 pontos, ou seja, dez repetições do motivo do barrado. Para isso, os aumentos da saia foram feitos a cada três voltas, e não a cada seis.

tricô em prosa - costas da salopete

Depois que alcancei 180 pontos, ainda teci seis voltas em barra 1×2 antes de iniciar o ponto do barrado. E após tricotar o ponto rendado, teci seis voltas em cordão de tricô (uma volta em meia, outra volta em tricô) para criar uma espécie de barra na saia.

Aproveitei um dia inteiro de feriado municipal para arrematar os pontos e embutir as (muitas) pontas. Escolhi o arremate costurado da Elizabeth Zimmermann. Faltando muito pouco para terminar o arremate, o fio acabou. Resolvi cortar outro pedaço de fio e continuar. Funcionou demais! Depois que as pontas foram embutidas, não se nota nada de diferente.

Depois de pronta eu lavei a peça e coloquei para secar na sombra sobre placas de EVA. Como coincidiu com a passagem de uma frente fria por aqui, demorou dois dias para ficar completamente seca.

tricô em prosa - detalhe das costas da salopete com o botão

Encontrei um botão de cor idêntica ao do fio, foi muita sorte! Mas o melhor de tudo é que a peça ficou pronta quase um mês antes do aniversário da bebê Valentina.

Eu fiquei muito satisfeita com o resultado, muito feliz mesmo! Meu marido chama a peça de “a pequena notável”, porque ela parece simples mas exigiu muitas etapas e muitos cálculos para sua confecção.

Agora é torcer para minha irmã e sua cunhada aprovarem o resultado.

Receita: (receita improvisada)
Fio: Pingouin Bella – cor 501 Lavanda
Composição: 100% algodão
Agulha: circular de numeração 2,75 mm e 3,00 mm de 1 metro de comprimento

Veja essa peça no Ravelry

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14 respostas em “uma salopete

  1. Parabéns !!!!!!!!!! 👏👏👏👏👏👏👏😱😱😱 fico encantada com a elaboração das suas peças!!!! São levadas à sério, uma obra de arte, com estudos, milimetricamente calculados, lavados , e sendo começado a ser confeccionado, levado à sério para que nada dê errado e saia perfeito como Tdo que faz, pena eu não ter podido ter continuado com uma prof.a. Igual à vc pois foi embora da cidade , mas éxassim que aprendemos, nos aprimoramos e fazemos peças perfeitas e sem erros, assim como temos mtas tricoteiras e admiro mto tdas elas e valorizo o trabalho de cada uma delas. Gratidao por compartilhar as maravilhas que faz com tanto amor , carinho e perfeição, bjus 🙅💋💖🙏🏻🙏🏻🙋🏻🙋🏻🙋🏻

  2. parabéns Valéria, ficou o máximo, to aqui babando <3 <3 Será que você vai escrever a receita? eu adoraria fazer uma igual, e pra que tamanho você imagina que vai servir?

  3. Linda peça😍 Se possível poste uma foto com a bebê Valentina usando essa salopete tão delicada….bjcas…

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